Dare to be stupid

Dia desses, cerca de três da madrugada, e eu decido ver quem são os outros doidos que não precisam dormir. Entrei no messenger. Encontrei um amigo, o Altieres, supreendentemente bem acordado para a hora.

03:06:32] Fernando diz:
olha, mais um zumbi comigo

[03:07:12] Altieres Rohr diz:
<barulho de zumbi do Resident Evil 2>
<mordida>2d6
3 + 2
Fernando perde 5 HP

[03:08:11] Fernando diz:
Como perde? Me dá um d10 aí
já vamos ver essa situação

[03:08:31] Altieres Rohr diz:
<mordida tem drain>Altieres ganha 5 hp

[03:08:44] Fernando diz:
po, mas eu sou zumbi também!
acordado as 3 da manhã… só pode ser zumbi

[03:09:13] Altieres Rohr diz:
<drain em zumbi envenena. veneno de zumbi é perigosíssimo>20d6
6*20 = ?
Altieres morre


Conversa meio estranha, né? Inventar um jogo nerd, talvez até um pouco infantil as 3 da manhã via messenger. Isso bem que podia ter se passado entre dois garotos de 15 anos cheios de espinhas que passam o dia todo em casa jogando video-game e se enchendo de junk food. Pois bem, Altieres Rohr é o criador do Linha Defensiva, um dos maiores fóruns na área de informática no Brasil, mantedor do blog Ira Racional e membro da ASAP (Aliança dos Profissionais de Análise de Segurança, na sigla em inglês). E eu… bem, pelo menos não tenho 15 anos.

Isso foi apenas para ilustrar uma constatação antiga. Boa parte dos “gênios” são, em sua vida pessoal completos retardados infantis. Vejamos: jogadores de RPG, super fãs de Star Wars, viciados em quadrinhos, colecionadores de action figures (que nada mais é que um nome bonito para “bonequinho”), cosplays, otakus… diversões reconhecidamente nerds que acabam reunindo, entre muitos adolescentes sem nada na cabeça, mentes brilhantes na área em que atuam. Existe alguma ligação entre essas duas coisas? Talvez.

O que se requer de um gênio? Acima de qualquer outra coisa, acredito eu, criatividade. Isso explica o fato de a maioria ser uma eterna criança. Bem antes que eu receba comentários do tipo “mas fulaninho era um gênio e não era assim”, deixem eu esclarecer duas coisas:

1. Esse é um blog de humor. Não tenho nenhum compromisso com verdades científicas nem com estatísticas. Se não cito fontes, digo puramente o que eu acho. Se você usou meus textos na sua tese de mestrado, problema seu.

2. Não quero saber das exceções. Estou falando da maioria.

Olhem o exemplo dos funcionários da Pixar Animation Studios. A empresa permite salas personalizadas, brinquedinhos de todos os tipos, roupas esquisitas no trabalho… enfim, tudo o que é necessário para o funcionário babar colorido se inspirar na frente do computador. Esses acessos infantis liberam o stress, ajudam a aumentar a criatividade e nos deixam muito mais de bem com a vida. Os funcionários vivem cercados de patinetes, quebra-cabeça, video games, mini-salas de cinema e competições de aviões de papel. O resultado disso? Toy story, Vida de inseto, Os incríveis, Ratatouille, Procurando Nemo, Monstros S.A. e muitos outros.

O pessoal do Google trabalha em meio a brincadeirinhas o dia inteiro, salas de jogos, fliperamas, junk food à vontade, partições personalizadas (entenda: um carnaval a parte dentro de cada baia)…<ironia>Será que a fórmula da criatividade funciona?</ironia>

Eu poderia passar o resto do dia citando exemplos (mas se eu não for dormir logo, meu cérebro está prometendo se desligar). Quem nunca sentiu vontade de ter um sabre de luz, ou qualquer outra tralha relíquia que o valha, que atire a primeira pedra!

Meu conselho: dare to be stupid (ouse ser idiota, em tradução livre, e também é uma música do Weird Al). Quem sabe isso libera o gênio que existe em você! Ou faz com que você se torne um babaca de vez…

3 comentários até agora ↓

#1 Mauricio Nero em 20 de Agosto de 2008 as 9:58 pm

cara, bom post. Eu estava justamente com um prontinho desse mesmo estilo pra terça q vem (dia 26/08). Estava soh esperando o cronograma para liberar. Mas gostei da analize. A minha vai falar sobre o que realmente eh um nerd. Eh meio filosofico ateh. Tomara q eu nao fale merda huahuauh.
Abraço.

#2 Altieres Rohr em 21 de Agosto de 2008 as 6:19 am

A questão, acredito, é que, no fim das contas, muitos nerds não levam a vida a sério. Isso possibilita que eles levem certas “inutilidades”– na visão de outras pessoas — a sério demais.

Como diz a Petrobrás, o “desafio é a nossa energia”, mas o “desafio” para um nerd pode ser tanto fazer um personagem invencível num RPG como colecionar action figures, latas, preservar velharias, ou ainda fazer alguém rir do outro lado da ponta de uma conexão TCP às 3h da manhã. Para os mais capazes, colocar o homem na lua pode ser o desafio.

E nestes desafios nós nos empenhamos. Por mais estranhos que pareçam, eles têm valor pra nós. E ao mesmo tempo nós não levamos a vida sério, porque gastamos tempo com estas atividades que são “obviamente” inúteis quando colocadas no Grande Esquema das Coisas.

É por isso que os mesmos nerds que fazem uma tradução relâmpago e de qualidade de Naruto (Dattebayo) conseguem ter ligação com um dos mais proeminentes grupos de trolls, a GNAA. E o “Portal de Esclarecimentos” do site brasileiro, apesar de cômico, ter XHTML e CSS válidos.

Sendo assim, levamos muitas coisas específicas e detalhadas muito a sério, enquanto o “geral”, “the big picture” não nos interessa. E isso tem umas conseqüências interessantes, como a citada acima.

É o que eu acho, pelo menos.

#3 Pati em 29 de Agosto de 2008 as 10:13 am

Não sei se você lembra do que eu te disse na fila do RU esses dias, que eu seguia a minha vida baseada em um “texto-mantra” aheuuaheheuhaue
Ele chama “Nerds mandam bem”. Um dos pontos citados no texto é essa extrema capacidade de um nerd de se empenhar ao máximo naquilo que ele faz por prazer, seja estudar cálculo, matemática discreta ou história das WW ou construir seu cosplay do zero, montar um personagem de RPG perfeito, etc.
A essência do nerd, pra mim, é ser perfeccionista, se empenhar ao máximo, dispor do seu tempo, naquilo que lhe dá prazer, pode ser físico, intelectual, qualquer tipo de prazer.
E o nerd de verdade sabe que quando ele ousa, sem se importar com a opinião alheia, ele está sendo não só autêntico, mas também livre.
E, realmente, as pessoas comuns não compreendem esses acessos criativos, essas vezes em que ousamos nos desprender do rotineiro, e nos criticam por isso. Somos os vagabundos viciados em internet. Os malucos que ficam jogando coisas estranhas. Os toscos que usam orelhinhas no Matsuri.
E, nossa, Weird Al, eu tenho a discografia dele quase completa!!! ;D

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