17 de Outubro de 2008 — Inutilidade
Começou de um jeito tímido. Depois de ter afastado todos os predadores ao redor, enchido a caverna de carne e inventado o fogo, a vida ficou meio sem graça na pré-história. Sobrou tempo pra ficar de bobeira, e da bobeira surgiu um batuque até legalzinho. Juntaram uns dois ou três batucando mais ou menos parecido, e estava feito o primeiro lual da humanidade.
Alguém consegue agora me explicar como isso chegou a uma indústria milionária que quer colocar propriedade e taxar tudo? Pois bem, aqui estamos, rounds incontáveis dos estúdios versus a internet.
Recentemente Estados Unidos criou um novo cargo, o Czar do Copyright, com uma tarefa bem clara: tratar dos assuntos que violam direitos autorais. Ponto pra gravadoras. Enquanto isso, na sua caverna escura e gélida, a RIAA (Associação das gravadoras americanas) planejava aumentar o preço que cobra pelos royalties, ignorando o efeito que isso causaria nas rádios on line, e nas lojas de MP3 legalizados. Foi aí que a Apple, dona da maior loja virtual de MP3, o iTunnes, bateu o pé e disse “Aí não brinco mais”. Claro, se um gigante dessa magnitude fechasse sua lojinha o baque seria forte demais até para as gravadoras, que foram obrigadas a recuar. Ponto pra gente.
Vemos por outro lado bandas como o Radiohead, que decidiu deixar seu último CD de graça para download no seu site, em alta qualidade. A jogada era simples: pague o quanto achar que vale. Deu certo. Ou quase. O In Rainbows não bateu nenhum recorde de vendas, a maior parte dos fãs preferiu baixar de graça mesmo, mas o faturamento foi maior que do álbum passado. A notícia completa está aqui.
O mago médium macumbeiro doido autor Paulo Coelho participou de uma feira do livro na Alemanha no último dia 15, onde falou sobre os benefícios da pirataria na internet para a divulgação. Aparentemente tem dois jeitos de encarar a pirataria:
1. Eles estão roubando meu lucro! Cortem-lhe a cabeça!
2. Sério? Eles estão divulgando meu trabalho e nem vão cobrar por isso?
Paulo Coelho aposta na segunda ótica. Tanto que deixou alguns dos seus livros para download gratuito no seu site. E dessa vez nem tem a estratégia de “pague o quanto quiser”, é de graça mesmo. Num passe de mágica, suas vendas subiram como um foguete. Mais aqui.
E para a indústria tradicional, que aposta na primeira alternativa, sobra amargar a morte lenta. Mesmo tendo tirado do ar milhares de cópias ilegais de filmes e músicas, fechando o cerco contra piratas, apreendendo computadores até de lan houses (o que os coitados têm a ver com isso?), a pirataria ainda corre solta. Mas vamos ver isso de outro modo: com a invenção dos carros, o que sobrou para os cocheiros? Virar taxista, claro! Mas nem todo mundo vê desse jeito. As gravadores ainda querem que o mundo se adapte a elas, e não o contrário.
A história está cheia de empresas que não se adequaram às guinadas do mercado. Nenhuma delas está aqui para contar a história. Isso diz alguma coisa?
Coloque a música tema de Piratas do Caribe agora para a frase ter um maior efeito (mas compre o CD pra isso!): Não adianta tentar amarrar o progresso com leis sem sentido. A era da internet chegou, o compartilhamento é uma realidade, o velho modelo de negócios quebrou. Agora vamos assistir uma virada espetacular, ou a morte anunciada das gravadoras. Enquanto isso, você pode ouvir o podcast VidaNerd.com. De graça, sempre.
07 de Outubro de 2008 — Mico
Imaginem se eu pagasse vocês para ler e ouvir o VidaNerd.com?
Tenho certeza que muita gente aí está pensando “eu quero, eu quero!”, mas infelizmente, ainda temos noção do ridículo. Seria a prova de que nossa incompetência de atrair ouvintes e leitores espontâneos, tal qual a nossa carência maníaco-depressiva atingiu níveis além do normal para um podcaster.
Pois bem, não é que tem uma empresa no vale do silício que partiu pra ignorância? A Microsoft, diante do fracasso aterrador do seu sistema de busca, o LiveSearch (alguém já usou isso sem ser por engano?), resolveu colocar na jogada uma coisa que tem muito mais que outras empresas: dinheiro. Funciona (funciona?!?) da seguinte maneira: você se cadastra e baixa um programa que monitora quantas buscas por dia você faz usando o LiveSearch¹. Há um limite de 50 buscas por dia, e você vai acumulando o número de buscas, sendo que cada uma vale um ponto. Com 525 pontos você ganha o download de uma música (segurem as risadas, eles estão tentando ser sérios), com 1100 ganha uma camiseta (eu quero uma camiseta do Google, por favor). E ainda você pode trocar seus pontos por milhas aéreas, mas não ficou bem claro quantos pontos vale uma milha.
Genial, ou extremamente louco? O fato é, uma hora os brindes vão acabar, e pra quem você vai voltar correndo? Gooooooogle! Mas eu tenho uma certa pena: dá pra sentir daqui a carência do Steve Ballmer. Vamos ajudar, pessoal. Vamos todos fazer ao menos uma busca no LiveSearch. Aqui vai uma sugestão de busca.
PS: estou muito, mas muito tentado a fazer um bot que fique buscando coisas aleatórias para mim. Não mais que 50 por dia, não menos que 20. Mas não… seria muita crueldade com o Ballmer. Todo mundo merece um pouco de calor humano.
¹. Experimente também: invasão de privacidade
26 de Setembro de 2008 — Inutilidade
Já tem algum tempo agora, mas ainda vale falar.
Pela primeira vez, aparentemente, o público resolveu ler aquela licença enorme que vem com os programas, a EULA. E justo de quem? Do Google Chrome, onde acharam uma passagem engraçada: dizia basicamente que tudo o que fosse produzido, enviado, postado, pensado, cantado e criptografado usando o navegador deles, passa a ser de propriedade da empresa, sem que eles precisem pagar nada por isso.
O povo saiu revoltado com tochas e foices na mão, querendo a cabeça de todo mundo que trabalha na empresa de Brokeback Mountain View. (Qual é, você consegue imaginar mesmo um monte de nerds revoltados saindo nas ruas? Estou falando é de petições on-line, e-mails irritados e posts em blogs/comunidades). Com tanto barulho, alguma coisa tinha que acontecer. E aconteceu.
O Google revisou essa EULA, mudando de idéia. Foi mais ou menos um “ok, o que você produzir no navegador é seu. Mas só dessa vez, hein?”. As pessoas ficaram felizes e satisfeitas, mas ignoraram um pequeno detalhe: aquele é o contrato de software padrão do Google. O que significa que todos os outros serviços ainda tem essa cláusula. Listinha resumida:
- Orkut
- Blogger
- Youtube
- Gmail
Já deu pra sentir, né? E eu não coloquei aí todos os serviços, só os principais em que é você quem produz o conteúdo. E ele pertence todo ao Google. Na Alemanha chegaram a boicotar o Chrome, alegando que seria coisa demais nas mãos de uma única empresa. Agora falta torcer pra eles levarem a sério o seu lema “don’t be evil” (não seja mau), por que eles já tem uma boooa base para serem bem maus.
Ps: Me avisem quando o Google fundar o próprio país (Googlenation?), que eu quero ser o primeiro cidadão. Antes com eles do que contra eles.
02 de Setembro de 2008 — Teorias
Reza a lenda que o sultão persa Xeriar gostava mesmo era de casar. Não de manter a noiva, só de casar mesmo. Por isso acabava matando a sua esposa logo depois da noite de núpcias. Na verdade isso era só mágoa enrustida: Xeriar teria sido traído pela sua primeira esposa. Alguns homens traídos perdoam, outros terminam o relacionamento, outros matam a esposa e o Ricardão (e ainda podem se dar bem dizendo que foi um crime passional), e outros ainda viram gays. Mas o plano do rei era outro.
A partir daí ele decidiu casar com uma virgem por dia, passar a noite com ela, e mandar executá-la no dia seguinte. Segundo dizem, o malandrão perverso Xeriar já teria executado 3 mil mulheres. Depois de conseguir o título de maior viúvo e homem com mais sogras no mundo, o sultão conhece uma mulher chamada Sherazade, e decide que ela seria a próxima.
Na primeira noite, Sherazade quer apenas para se despedir da sua irmã, Duniazade (eita família pra dar nomes, hein?), que lhe pede uma “última história”. “Última história”?, pensou Xeriar “WTH?”, e resolveu ficar perto para ouvir. Sua esposa começar a contar uma história que vai ficando cada vez mais empolgante, e justamente na melhor parte ela para! Simplesmente para!
- E o resto da história?
- Hoje não meu bem… estou com dor de cabeça. Amanhã eu cotinuo.
Doido da cabeça, o sanguinário soberano decide dar mais uma noite de crédito para sua nova futura ex-esposa: “amanhã ela termina a história, e eu posso matá-la tranquilamente”.
Na noite seguinte, como prometido, Sherazade continua a história de onde havia parado, dando um final que surpreendeu e agradou seu marido. Mas obviamente ela não parou por aí, e começou uma nova história, tão emocionante e cativante quanto a anterior, e exatamente como na enterior… termina subtamente!
- Deixa eu adivinhar. dor de cabeça?
- Pois é, é uma praga… Amanhã eu continuo.
“Desgraçada! Me enganou de novo! mas da próxima noite não passa”. Claro, a próxima noite aconteceu exatamente a mesma coisa. A garota era boa nisso. Xeriar provavelmente foi o primeiro a experimentar essa sensação de fim de temporada do Lost, e saber que teria que esperar muito para o fim de uma ótima história. Assim foi por muitas e muitas noites. Mais precisamente por mil e uma noites. Espera, mil e uma noites contando histórias?? Eles não… bem, sabe…
Claro que sim. Só não me pergunte quando rolava isso. A lenda de Sherazade só trata da parte das histórias, mas o fato é que ela teve três filhos com Xeriar, o que fez com que ele largasse a “vida loKa”, e mudasse de idéia quanto a matar sua esposa.
Gary Gygax e Dave Arneson até merecem seu crédito no mundo de D&D, mas o storyteller (aquele estilo de RPG que trata mais de contar uma história legal do que da ação em si) teve uma mãe muito mais antiga.
19 de Agosto de 2008 — Teorias
Dia desses, cerca de três da madrugada, e eu decido ver quem são os outros doidos que não precisam dormir. Entrei no messenger. Encontrei um amigo, o Altieres, supreendentemente bem acordado para a hora.
03:06:32] Fernando diz:
olha, mais um zumbi comigo
[03:07:12] Altieres Rohr diz:
<barulho de zumbi do Resident Evil 2>
<mordida>2d6
3 + 2
Fernando perde 5 HP
[03:08:11] Fernando diz:
Como perde? Me dá um d10 aí
já vamos ver essa situação
[03:08:31] Altieres Rohr diz:
<mordida tem drain>Altieres ganha 5 hp
[03:08:44] Fernando diz:
po, mas eu sou zumbi também!
acordado as 3 da manhã… só pode ser zumbi
[03:09:13] Altieres Rohr diz:
<drain em zumbi envenena. veneno de zumbi é perigosíssimo>20d6
6*20 = ?
Altieres morre
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08 de Agosto de 2008 — Inutilidade
Há algum tempo fomos presenteados com a obra-prima chamada Batman: The Dark Knight. E o Batman era só uma figura secundária! Mas quem poderia concorrer com a atuação de Heath Ledger? Esse nerd se trancou em um hotel semanas antes das gravações para estudar o personagem. Ainda me pergunto o que seria estudar esse personagem. Ler quadrinhos? Não importa. O que realmente importa é que Ledger fez a lição de casa, e fez bem. Chegou a fazer Michael Caine (Alfred, o mordomo que nunca envelhece) esquecer as suas falas no set de gravação! Estressado e cansado com todo esse esforço, Ledger pediu ao seu médico que lhe receitasse calmantes e soníferos. O problema foi que o doutor esqueceu da velha pergunta “o senhor já toma alguma medicação?”. Resultado: morte por intoxicação.
Daqui para frente não existe mais Coringa. Não até que toda essa geração morra e o filme apodreça. Qualquer outro que tentar está sumariamente fadado ao fracasso. Mas esse não é o único personagem doido que faz sucesso nas telas. Quem viu a sequência de Jogos Mortais conheceu um cara que ganhou o apelido de “Jigsaw” (quebra-cabeça em português, mas por favor, não traduzam), um assassino que na maior parte do filme sequer tem rosto, e é representado por um boneco de ventriloquismo (verbalizando, isso tudo fica extremamente vergonhoso, não?).
O fato é que o sucesso dos dois filmes revela a nova tendência de vilões nos filmes. Não basta mais ser mau, nem ser só doido: precisa ser doido, genial, engenhoso e ter um propósito. Um resquício disso pode ser encontrado até no primeiro filme da célebre trilogia “Pânico”, apesar de ter servido apenas como um aquecimento para os verdadeiros vilões; alguns deles tão piradamente carismáticos que nos fazem torcer mais por eles do que pelos mocinhos. É o caso de Jack Sparrow e Barbosa em Piratas do Caribe (ou você esqueceu que eles são ladrões?), Magneto dos X-Men, Sideshow Bob dos Simpsons, Saga de Gêmeos nos Cavaleiros do Zodíaco (sim, estou falando sério) e Venom no Homem-Aranha.
Mas nesses quesitos de genialidade, loucura e motivação, ninguém conseguiu superar ainda o Doutor Hannibal Lecter. Aqui estou óbviamente excluindo Heath Ledger como Coringa, já que uma disputa com esse monstro seria injusta. Hannibal canibalizou a própria irmã, sem saber, quando era criança. Acabou prometendo se vingar de todos aqueles que a comeram, e vive com o dilema de ter prometido acabar consigo mesmo. Acho que a partir do momento em que é necessário manter o cara com uma grade na boca além da camisa de força e preso a um carrinho de bujão de gás, ele deve ser considerado como um vilão muito mother fucker.
E ainda nem é hora de falar de Lost, já que nem sabemos quem é o vilão ou não. Ainda me pergunto se eu deveria sentir raiva do Benjamin Linus.
O que diria o Coringa ao Ben? “Why so serious?”
07 de Agosto de 2008 — Inutilidade
Começou há algumas semanas um jogo de regras simples, mas cruel.
Chama-se Prisma Jump. Funciona
assim: a Chevrolet coloca um Prisma do ano para leilão. Cada pessoa
que se cadastra tem direito a três lances que vão incrementar em 1
real o valor do lance atual do carro. Ao meio dia de uma data marcada,
quem tiver o maior lance (leia-se o último lance dado) leva o carro.
Aqui começa a crueldade. A partir do meio dia, qualquer pessoa, que
ainda tenha direito a um lance, tem até 2 minutos para cobrir o lance
atual. Se isso for feito, o contador regressivo para o fim do leilão
volta a 2 minutos, e qualquer outra pessoa pode dar outro lance,
fazendo o ciclo recomeçar. Lembre-se que o lance só incrementa 1 real.
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